quinta-feira, 26 de março de 2015

EXAME TRAUMÁTICO



                 Alguns anos atrás...
                 Naquele dia, quando levantei pela manhã, ainda de jejum, me preparei para ir até a clínica fazer uma tomografia computadorizada (TC), do tórax com contraste, para ver a evolução da enfermidade que estava me debilitando.
                 Chegando à clínica, passei por todos os processos de atendimento, fui chamada para realizar os exames, havia outros a serem feitos no mesmo dia e no mesmo lugar, hoje já não me lembro de quais eram, mas desta tomografia nunca esqueço.
Na antessala da máquina da bendita tomografia, começou toda a saga do dia, tive reações que eu nunca imaginava ter.
                 No início era eu e uma técnica que deveria pegar uma de minhas veias e me conectar com a máquina, que no momento certo injetaria o contraste na veia e este percorreria rapidamente por todo meu corpo, enquanto a máquina faria uma sequência de imagens do meu pulmão.
                 A técnica não conseguiu pegar uma veia sequer. Depois de cinco picadas infrutíferas eu já havia perdido toda a serenidade, mas respirava fundo para me manter tranquila, perguntei se não havia outra pessoa para colocar a bendita agulha na veia.
                 Vieram mais dois técnicos e começaram a furar o outro braço e nada, depois de sem exagero, de mais dez picadas sem sucesso, me vejo cercada de pessoas, com garrote apertando os dois braços ao mesmo tempo e sendo picada simultaneamente.
                 Aqui começou toda a crise, pedi que parassem de me furar, comecei a chorar incontrolavelmente e tremia de bater o queixo. Lembro-me dos técnicos tentando me acalmar, mas quanto mais eles falavam, mais eu chorava.
                 Levaram-me para um quarto nos fundos da clínica, cobriram me com um cobertor grosso, pois ainda tremia e chorava sem parar.
                 Respirava fundo, conversava comigo mesma para me controlar e nada, continuava em crise e sempre que alguém colocava o rosto dentro do quarto e me perguntava se eu já estava bem, começava a chorar de novo.
                 Esqueceram-me por lá mais ou menos quarenta minutos e eu continuava tentando parar de chorar, me fortalecia, conversava comigo mesma me dando força, pedia a Deus para me devolver o equilíbrio e nada, chorava e tremia sem parar.
                 Eis que entra os atendentes com uma senhora em uma cadeira de rodas com sua filha e filho, ela deveria ter sessenta anos e estava com as costelas fraturadas, comecei a perceber a dificuldade que os filhos encontravam para vesti-la com a roupa da clínica, para fazer os exames.
                 Ela chorava, gemia e dizia que não suportava a dor, a filha mais cuidadosa, foi conversando com ela e devagarinho foi vestindo sua mãe e eu respirava fundo, conversava comigo mesma e me questionava o porquê de toda essa crise se eu estava bem comparada àquela senhora.
                 Fui me fortalecendo, respirando fundo, pedindo força e sabedoria a Deus, enfim parei de chorar e tremer. A senhorinha saiu para fazer seus exames.
                 Sozinha novamente vi que já estava bem, nisso entra uma enfermeira, puxa uma cadeira, pega meu braço, coloca o garrote e pega uma veia de primeira, perguntei por que ela não tinha vindo antes, me explicou que é uma enfermeira de um hospital ali perto da clinica e eles a solicitaram para me atender.
                 Agora, já na sala de exames, com a veia conectada no contraste e este na máquina, começou o exame, chega o momento de injetar o contraste, colocaram uma mangueirinha de encaixe e não de rosca, resultado com a pressão da máquina, a mangueira se desconectou e tomei um banho de contraste que voava em todas as direções.
                 Sorte que a agulha ficou firme na veia, não deslocou. Fizeram a aplicação manual. O exame continuou e terminou quatro horas depois da primeira tentativa.
                 Esse dia não esqueço jamais e sempre que os médicos me pedem tomografia computadorizada (TC), vou logo falando, sem contraste, tenho alergia...
Heloisah 
       

sexta-feira, 20 de março de 2015

FATOS DA VIDA


                Era um dia de chuva forte, daquelas que alagam ruas e a enxurrada se torna violenta. Como não havia sinal de que a tormenta iria passar, minha Madrinha, resolve ir para casa.
          Sai do Bairro Jundiaí, a chuva caía forte, incessante, perigosa e traiçoeira; com cuidado, aliás, ela  sempre cuidadosa, consegue chegar até a porta de sua casa.
          Até aqui, tudo bem, a enxurrada estava alta na porta da garagem e sem pensar na possibilidade de algo pior acontecer, vira o carro para colocá-lo para dentro, pega o guarda chuva, as chaves e pensa em descer para abrir o portão.
          O que ela não percebeu foi que, ao virar o carro para colocá-lo na garagem, a água da chuva ficou represada e sem ter para onde ir tomou força e violentamente começou a escoar por todos os lados, inclusive, por debaixo do carro, fazendo-o balançar como uma embarcação em alto mar.
          Mesmo assim, ela não viu grande perigo e ao colocar os pés no chão, a água represada pelo automóvel escoou com tal velocidade e força que ela foi ao chão.
          A enxurrada a arrastou por debaixo do carro; sorte que o veículo não era rebaixado, acredita-se que ela caiu de barriga para baixo, e suas costas foram debatendo entre a ferragem, escoriando a pele e rasgando sua roupa, e assim no susto ela atravessou entre os pneus e na parte inferior  do carro sem ficar presa e sem se afogar, pela graça de Deus.
          Mas a água era tanta que a mesma só conseguiu se sentar há mais ou menos cinquenta metros abaixo, no cruzamento de duas avenidas, onde o sinaleiro se encontrava desligado, por falta de energia. Foi socorrida pelo seu sobrinho, que mora por perto e estava chegando em casa, ajudou-a,  chamando seu esposo, para auxiliá-la.
          As chaves do carro, da casa, o guarda chuva e os óculos foram levados e nunca mais encontrados; escoaram boeiro abaixo. Para enfrentar a correnteza e colocar o veículo na garagem foi outra luta, força humana contra a violência da natureza. Enfim, com o automóvel guardado em uma garagem inundada, hora de olhar o estrago no próprio corpo.
          As costas parecia aquelas que levam chibatadas amarradas no tronco. As pernas com hematomas e inchadas, aliás hematomas por todo o corpo.
          Não quis procurar ajuda médica e com o passar dos dias veio a febre e a perna inchada começou a ficar com uma coloração amarelo-esverdeado, não teve jeito, foi preciso ir ao médico.
          Com a lesão diagnosticada foi necessário fazer uma drenagem para que a mesma melhorasse. Depois do ocorrido veio o pânico por dias de chuvas, principalmente se precisasse dirigir, mas com o tempo o pavor diminuiu, mas até hoje está presente na forma de alerta.
          Depois de estar viva por milagre, começou a dar maior valor à vida. Principalmente, depois de alguns meses a mídia retrata em seu noticiário, casos semelhantes, até com vítimas fatais.
          Hoje relembrando o fato, agradeço a DEUS por nos ter dado apenas um susto. Sinto que ela renasceu no exato momento que conseguiu sentar-se no asfalto, no meio de um cruzamento de duas avenidas com alto fluxo de tráfego e no momento totalmente deserta.
          Sentada, no asfalto e no meio do cruzamento, sinalizava  com as mãos, assumindo o papel do sinaleiro, pedia socorro. Contava apenas com a iluminação dos faróis dos carros. Muito assustada, confusa e sem entender a dimensão do perigo, continuava atordoada, mas, supostamente viva. Renascida e rebatizada na água suja da chuva.
Heloisah