sexta-feira, 20 de março de 2015

FATOS DA VIDA


                Era um dia de chuva forte, daquelas que alagam ruas e a enxurrada se torna violenta. Como não havia sinal de que a tormenta iria passar, minha Madrinha, resolve ir para casa.
          Sai do Bairro Jundiaí, a chuva caía forte, incessante, perigosa e traiçoeira; com cuidado, aliás, ela  sempre cuidadosa, consegue chegar até a porta de sua casa.
          Até aqui, tudo bem, a enxurrada estava alta na porta da garagem e sem pensar na possibilidade de algo pior acontecer, vira o carro para colocá-lo para dentro, pega o guarda chuva, as chaves e pensa em descer para abrir o portão.
          O que ela não percebeu foi que, ao virar o carro para colocá-lo na garagem, a água da chuva ficou represada e sem ter para onde ir tomou força e violentamente começou a escoar por todos os lados, inclusive, por debaixo do carro, fazendo-o balançar como uma embarcação em alto mar.
          Mesmo assim, ela não viu grande perigo e ao colocar os pés no chão, a água represada pelo automóvel escoou com tal velocidade e força que ela foi ao chão.
          A enxurrada a arrastou por debaixo do carro; sorte que o veículo não era rebaixado, acredita-se que ela caiu de barriga para baixo, e suas costas foram debatendo entre a ferragem, escoriando a pele e rasgando sua roupa, e assim no susto ela atravessou entre os pneus e na parte inferior  do carro sem ficar presa e sem se afogar, pela graça de Deus.
          Mas a água era tanta que a mesma só conseguiu se sentar há mais ou menos cinquenta metros abaixo, no cruzamento de duas avenidas, onde o sinaleiro se encontrava desligado, por falta de energia. Foi socorrida pelo seu sobrinho, que mora por perto e estava chegando em casa, ajudou-a,  chamando seu esposo, para auxiliá-la.
          As chaves do carro, da casa, o guarda chuva e os óculos foram levados e nunca mais encontrados; escoaram boeiro abaixo. Para enfrentar a correnteza e colocar o veículo na garagem foi outra luta, força humana contra a violência da natureza. Enfim, com o automóvel guardado em uma garagem inundada, hora de olhar o estrago no próprio corpo.
          As costas parecia aquelas que levam chibatadas amarradas no tronco. As pernas com hematomas e inchadas, aliás hematomas por todo o corpo.
          Não quis procurar ajuda médica e com o passar dos dias veio a febre e a perna inchada começou a ficar com uma coloração amarelo-esverdeado, não teve jeito, foi preciso ir ao médico.
          Com a lesão diagnosticada foi necessário fazer uma drenagem para que a mesma melhorasse. Depois do ocorrido veio o pânico por dias de chuvas, principalmente se precisasse dirigir, mas com o tempo o pavor diminuiu, mas até hoje está presente na forma de alerta.
          Depois de estar viva por milagre, começou a dar maior valor à vida. Principalmente, depois de alguns meses a mídia retrata em seu noticiário, casos semelhantes, até com vítimas fatais.
          Hoje relembrando o fato, agradeço a DEUS por nos ter dado apenas um susto. Sinto que ela renasceu no exato momento que conseguiu sentar-se no asfalto, no meio de um cruzamento de duas avenidas com alto fluxo de tráfego e no momento totalmente deserta.
          Sentada, no asfalto e no meio do cruzamento, sinalizava  com as mãos, assumindo o papel do sinaleiro, pedia socorro. Contava apenas com a iluminação dos faróis dos carros. Muito assustada, confusa e sem entender a dimensão do perigo, continuava atordoada, mas, supostamente viva. Renascida e rebatizada na água suja da chuva.
Heloisah

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